Antônio Carlos Aquino escreve sobre o cenário moral desolador das cidades

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Viajar pelo interior da Bahia, em especial, é ter a certeza de uma grande mentira das estatísticas do País: as cidades não estão crescendo, estão inchando.  Com pesar, não consigo ver exceções. 

Como Administrador posso repetir o jargão da área em que afirmamos que é impossível resolver problemas estruturais e sociais que crescem em proporção geométrica com soluções e condições de trabalho que crescem em proporção aritmética. Conclusão técnica: se algo de muito sério, profundo, racional, planejado e consequente não for feito desde já, o que está ruim, tende a piorar.

Exemplarmente, por mais estarrecedoras e dramáticas que sejam as consequências das chuvas nas cidades, elas são obras dos homens, das pessoas. Se elas sabem o que estão fazendo de errado, são criminosas.  Se não sabem, são ignorantes. Ambos têm custos e consequências. Os mosquitos da dengue estão aí para ser mais um exemplo do casamento da ignorância com irresponsabilidade administrativa. 

Tragédias anunciadas nascem da situação física, urbana, paisagística, política, administrativa e social da maioria das cidades, muitas delas sujas, feias, sem planejamento e controle urbano, sem saneamento, com graves crimes ambientais, novos e velhos, com uma dinâmica de mobilidade conflituosa, tensa e adensada.

Como profissionais, sabemos que o modelo político – governamental brasileiro está falido, vencido, ultrapassado e podre, o que torna a realidade acima descrita corriqueira, habitual, banalizada. Os problemas sociais nas cidades crescem de forma exponencial, ao passo que a capacidade das prefeituras darem respostas mínimas às demandas regride. O quadro é desalentador! 

Como cidadão, observo o retrato da decadência, da falência das estruturas do País na educação, no fomento ao desenvolvimento, no cuidado e respeito com o patrimônio público. Percebem-se claramente as consequências desastrosas do pior dos casamentos para qualquer possibilidade de crescimento sustentável das cidades: maus gestores com maus eleitores, em um ambiente político sem espaço para as melhores lideranças e as melhores práticas nas relações públicas versus privadas.

Mais que vergonha, essa realidade adoece, provoca profunda tristeza, amargura nas pessoas e isso é muito ruim. É perceptível o abandono, desamor, mau gosto dos que estão cuidando e vivendo nos centros urbanos. 

Embora possamos afirmar que a corrupção é um dos grandes males da administração pública brasileira, podemos também afirmar com certeza que ela é obra de homens e mulheres, sejam governantes, sejam cidadãos. É impossível uma licitação ser fraudada, dirigida, manipulada e corrompida sem a participação direta ou indireta, ativa ou passiva, sem a omissão dos nomeados ou concursados da máquina pública, a prevaricação, a irresponsabilidade, a incompetência, o nepotismo, o patrimonialismo, entre outros desvios de conduta de entes públicos. Tudo isso  torna as cidades verdadeiras tragédias disfarçadas de administração pública. 

Por falta de alternativas, por desconhecerem realidades exemplares e outros modelos (no Brasil tem muitos), os cidadãos locais acomodam-se, adaptam-se, convivem e em muitos casos buscam também suas imorais e criminosas vantagens.

Tudo isso se completa com o maniqueísmo político, com o terrorismo religioso, com todos os tipos de estelionatos e manipulações. Se a humanidade soubesse o custo e as consequências de tanta ignorância, priorizaria a educação, os estudos, o conhecimento e saber.

Por Antônio Carlos Aquino, administrador de empresas, palestrante e consultor especializado em Mídia Exterior

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